segunda-feira, 29 de outubro de 2007

As folhas da Bananeira

É curioso como a natureza é tão bela, apesar de ter espécies tão diferentes. Aqui no Brasil, temos a felicidade de termos uma árvore muito comum, mas que têm folhas muito diferentes de todas as demais árvores. Falo da bananeira.
Perceba como as folhas da bananeira são diferentes das demais árvores frutíferas. Enquanto as demais árvores costumam ter galhos repletos de folhas, a bananeira tem como que uma junção entre galho e folha, já percebeu? Praticamente não se nota a distinção, pois a própria folha já é o galho! Com isso, a bananeira pode ter uma desvantagem aparente em relação às demais árvores, haja vista que os galhos de madeira costumam ser muito mais resistentes. Todavia, se observarmos as demais árvores em uma ventania, perceberemos que os galhos mais fortes permanecem, os gravetos se vão e, na maioria dos casos, boa parte de suas folhas. Já a bananeira não! As folhas se movimentam violentamente ao vento, mas permanecem ligadas à árvore, com raríssimas exceções. Se observarmos melhor, poderemos perceber ainda que as folhas da bananeira têm a particularidade de, por serem muito grandes, terem pequenas fendas, que as auxiliam ainda mais a suportar ventos impetuosos.
Após todas estas observações, você deve estar se perguntando: o que isso tem haver com a minha vida espiritual? À princípio parece que nada, certo? Mas, avaliemos melhor... Se olharmos bem à nossa volta, Deus nos envia sinais a todo tempo! Quantos de nós já não compreendemos mensagens indiretas de Deus? O próprio Senhor Jesus pregava utilizando-se de parábolas, que nada mais são do que mostrar os sinais de Deus através da realidade do povo, da natureza, das coisas criadas por Deus e da vida criada pelo homem. Pois bem, um dia senti que Deus também me falava através da folha da bananeira justamente por tudo o que tratamos acima. Para ser mais claro, vamos por partes:

1) A bananeira não tem distinção entre galhos e folhas:
a. Quando pensamos assim, vemos que há uma unidade entre a folha e o caule. Embora ambos sejam muito mais frágeis do que a maioria das árvores, pois não são de madeira, mas de uma fibra vegetal, esta unidade lhes confere uma segurança maior contra o vento. Afinal, enquanto nas demais árvores, as partes mais frágeis (as folhas) são arrancadas facilmente pelo vento, dificilmente uma folha de bananeira será levada, salvo por um vento extremamente forte.
b. Assim, devemos pensar nas famílias, nos grupos, nas pastorais e nos movimentos, ou seja, na Igreja como um todo. Se nossa comunidade está sempre unida, ainda que com pequenas divergências (que poderiam ser representadas pelas fendas da folha de bananeira), ficará muito mais difícil vermos nossos membros mais frágeis (aqueles que ainda não estão firmes na fé) serem levados por “ventos de doutrina”, pois os que estão mais próximos ao caule (membros mais firmes na fé) seriam “um só” com os mais débeis. Assim, quando a comunidade for atingida por “ventos de doutrina” ou ventos de discórdias, de intrigas, de maledicências ou de contendas, ainda que toda a comunidade balance (e muito), todos se manterão unidos e poderão resistir às intempéries! Do contrário, se formos como as demais árvores, veremos facilmente serem levadas as folhas e até mesmo alguns galhos que ainda estavam em formação (irmãos um pouco mais firmes na fé), que poderiam dar frutos “cem por um”.

2) A folha cresce para o alto:
a. A folha de bananeira cresce para o alto e, quando cresce demais, começa a se voltar para o solo.
b. Muitas vezes uma comunidade precisa saber exatamente o tamanho que ela deverá ter, para não começar a se voltar para a Terra e não mais para o Céu! Muitas vezes nós, cristãos, felizes e conscientes de nosso chamado à evangelização, queremos ver nossa Igreja cheia, nossa pastoral repleta de membros, nosso movimento enorme, mas nos esquecemos de que a Salvação de Jesus é pessoal, ou seja, Jesus quer salvar cada criatura pessoalmente!
c. Embora Jesus pregasse para multidões, muitas vezes Ele obtinha grandes conversões quando “entrava na casa” de publicanos e prostitutas. Os próprios apóstolos, quando conheceram Jesus perguntaram: “Rabi, onde moras? Vinde e vede, respondeu-lhes Ele.” (Jo 1, 38-39a). O que isso quer dizer? Quer dizer que, muitas vezes, precisamos ter comunidades que nos permitam estar próximos das pessoas! Precisamos demonstrar-lhes o amor que pregamos!
d. É claro que não podemos esperar que dirigentes de grupos, comunidades ou movimentos gigantescos tenham a possibilidade de irem à casa de todos os seus membros. Não estou dizendo que todos tenham de ser visitados em seus lares, mas em seus corações, que é o lar onde o Senhor quer habitar! Que adianta termos 1.000 pessoas na Missa Dominical, se não conhecemos a maior parte dos irmãos? Se não podemos demonstrar o interesse que temos por eles? Assim, muitos apenas IRÃO à Igreja, mas não SERÃO Igreja, como é vontade do Pai!

3) As folhas de bananeira protegem os cachos:
a. As folhas da bananeira são grandes e compridas para protegerem aquilo que é mais importante: seus frutos! Sim, ao contrário da maioria das árvores, os cachos de banana não se encontram nas extremidades dos galhos, ou mesmo espalhados por eles. Os frutos se encontram bem junto ao caule, que é a parte mais forte da árvore, para serem protegidos enquanto crescem.
b. Pois bem, muitas comunidades crescem belas e frondosas, lindas mesmo! Mas, quando começam a dar frutos, vêm predadores e começam a arrancá-los ou destruí-los, antes mesmo que possam se defender! É no seio da comunidade que os frutos começam a surgir e precisam ser muito bem protegidos até que possam estar prontos para servirem para alimentar os homens famintos por Deus. Do contrário, sequer chegarão à serví-los. Jesus nos deixou vários legados, entre eles o de sermos “Sal da Terra” e “Luz do Mundo”, completando que “se o sal perder o sabor, com que iremos salgá-lo” e que “não se acende uma lamparina para colocá-la debaixo de uma cama” (Mt 5, 13-15), portanto, os frutos nascidos na Igreja devem estar à disposição de toda a humanidade! Não é apenas para alimentarmos os que já estão junto de nós, mas também aos que estão de fora! Portanto, amados, é importante protegermos aqueles que ainda estão começando a se preparar para o ministério evangélico, à fim de que possam estar prontos a levarem a Palavra através do meio que Deus revelou ao permitir e orientar a criação de nossos grupos, movimentos, comunidades e pastorais, fazendo com que toda a Igreja cumpra a sua Missão Evangelizadora “com renovado ardor missionário”.

Por fim cabe-nos a pergunta: minha família, minha comunidade, meu grupo, minha Paróquia, minha pastoral são uma bananeira ou uma outra árvore? Como anda a nossa unidade? Estamos nos protegendo mutuamente? Somos capazes de resistir aos “ventos”? Estamos cumprindo a missão que o Senhor Jesus nos confiou?
Reflitamos, oremos e, caso seja necessário, mudemos nossas posturas, unindo-nos mais do que atacando-nos, para que possamos ser frondosas árvores como “as azinheiras da justiça, plantadas pelo Senhor para a Sua Glória” (Is 61, 3), pois “O machado já está posto à raiz das árvores, toda a árvores que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo!” (Mt 3, 10). Deus nos abençoe e envie o Seu Espírito e nós saibamos seguir o exemplo de Maria, dizendo ao Senhor: “Eis aqui a escrava do Senhor! Faça-se em mim, segundo a sua Palavra!” (Lc 1, 38) e estejamos à serviço do Reino como ela, mesmo grávida, saiu a servir Isabel!